24 agosto 2013

Reerguer-se do Oculto - Poemas de Marcelo H. Zacarelli

Foto de: Sebastião Salgado

Reerguer-se do Oculto


Vulgo de si mesmo, reles, os pensamentos
de que se abdicou por estar sofrendo.
A flâmula que queima, o lado esquerdo do seio
e desce a vertente, a face que então; Horrendo...
Se então labutar, e com os lábios ofegar,
esparramar-se-á, em que de ti há de ansiar.

Padece aquele homem, tão pérfido, seu coração...
Que avalassa os rumores, de tamanha indecisão;
Qual lhe quebram os ossos, a teia, tendenciosa,
a pele que escameia a face, da casca escabiosa.
Tinha por porfia, encerrado na prisão,
a alma soterrada, estupefata admiração.

Solene, a tua voz, soava em alarido mudo,
sobre o sol das incertezas, lacrimeja o moribundo.
Sobre a haste, a fincada carne, dissipada desfalece,
ao jorrar o sangue quente, que no seu ventre umedece.
Tosco é a saudade, que vareia os teus rumores,
promíscuo da maldade, repentino como as dores.

Bem cedo tomou a tua cama, e forjou desfalecer,
as vestes que de ti profana, qual jurou esmaecer.
Quantos goles de sol, enjoou na sua garganta,
quantos salmos decifrou, decorou na sua mantra.
Profundo é o abismo, raso dos teus lábios,
fruto de ti, absurdo; Eloquentes em escassos.

Dentre os mortais, reanimou o teu temor,
sobre a ume, enterrou um segredo; pobre caluniador...
Viestes a este, em tom de desespero,
calastes a fim, o vitupério exacerbado dos teus erros;
Meândrico, aqueles olhos, um pasmo...
Obsoleto, até os ossos enterrados.

Descobriu-se, de intempestivos cuidados,
ainda tarde para um ato tão covarde.
Na derrocada sincera da sua lágrima,
encontrou abrigo na saliva salgada...
Teus olhos rútilos absorvem um veneno,
suave como a morte, de um brado tênue.

Soluça a dor em seu travesseiro,
tão aquieta mágoa que sentiu primeiro.
Tragou a boca o sangue que te fez provar,
lâmina da faca cega, lúgubre desejar;
Quem dera bebesse o sol e vomitasse o vinho,
na volúpia demente do seu quase desatino.

Um vulto se desprega ao chão, parece fugir
pela fresta tangente, de modo a lhe possuir...
Lasciva, e ao mesmo tempo prepotente,
frígida, maleável, levemente transparente.
Rogas no calvário, delinquentes pecados,
por causa dos teus atos, heris obcecados.

A pelugem estapafúrdia cobria-lhe o queixo,
tamanha a ruptura guardada do desleixo.
Maltrapilho vagava, mendigava o pão,
rouquejava a sua lábia, por voraz aptidão.
Não é a roupa mais que o homem,
nem o leito mais que o chão?

Mas, nem mesmo na morte um homem está sozinho,
ao turvar os olhos, murmurar o seu sorriso...
Fundo é a cisterna em que se afoga imundo,
da vida a saudade que te torna inútil;
Sutura os lábios razoável, latejados maldizentes,
reergue-se do oculto, admirável e reluzente.


Marcelo Henrique Zacarelli
Rua:Bela Cintra, (SP) Julho de 2013, no dia 15

Foto de: Sebastião Salgado