16 novembro 2013

Imunodeficiência - Poema de Marcelo H. Zacarelli


Imunodeficiência

Ouça-me... Um vez mais ouça-me
Os lampejos da hipocrisia passaram pelo vão da porta
Ouça escapar das mãos a vida mesmo que tardia
Ouça escorrer os conselhos de Jó
Os provérbios de exilados profanos
Poderão sustentar-me de pé?

Ouça-me... Não a mim, mas a cegueira da minha loucura
Os turbilhões nômades que penetraram as veias
A estridente e suave nota, 
A mais alta pervertida que faz ecoar os tímpanos
Não posso parar de ouvi-la.

É decadente o estado destes ossos viventes
Você não pode ouvi-la dentro de você
Ela te surpreende de lamentos
Usurpa a tua mente com silêncio ensurdecedor
Mas eu, não posso parar de ouvi-la
Faz parte de mim desde ainda menino
Do convívio com minhas células.

Ainda posso rastejar como as serpentes
Desejar como embrião um dia nascer
E formar uma nova luz sem manchas
Eu me descobri tarde demais
As caravanas já haviam passado.

Olhe para mim e veja o projeto de quem desce as sepulturas
Desarraigam as raízes da intolerância
Fada-me de esperanças libertinas
Fala-me se consegues entrar nos meus olhos
E extrair as dores das minhas córneas
Mais que minha carne está doente os meus pensamentos.

Olhe pelo vão da porta e não deixe escapar o vento
Ouça-me por alguns segundos
Não posso desistir da vida
Ela me faz bem, não posso parar de ouvi-la.


Marcelo Henrique Zacarelli
São Paulo, Janeiro de 2011 no dia 12

Ouça-me... Não a mim,
mas a cegueira da minha loucura...