04 janeiro 2014

A Pera - Nicolau Tolentino de Almeida


A um leigo arrábido vesgo despedido da mesa de
S.C.P. Silva, por tomar a melhor
pera da mesa.

O vesgo monstro que coa gente ralha
E de manhã a todos atravessa,
A cuja hirsuta sórdida cabeça
Nunca chegou juízo, nem navalha;

Que os gázeos olhos pela mesa espalha
Por ver se há mais comer que tire ou peça,
Entrando nele com tal fome e pressa
Qual faminto frisão em branda palha;

Por crimes de alta gula e pouco siso
De mesa bem servida, mas severa
Foi um dia lançado de improviso.

Hoje chorando o seu perdão espera:
Perderam dois glutões o paraíso
O antigo por maçã, este por pera.

Poema de: Nicolau Tolentino de Almeida

O Poeta Português Nicolau Tolentino

Nicolau Tolentino de Almeida (Lisboa, 10 de Setembro de 1740 - 23 de Junho de 1811) foi um poeta português. Pertenceu ao movimento da Nova Arcádia (1790-1794). Aos vinte anos ingressou em Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, mas ao invés dos estudos tinha vida boêmia e de poeta. No ano de 1765 tornou-se professor de retórica, numa das cátedras criadas pelo Marquês de Pombal, após a expulsão dos jesuítas. Seus versos continham sempre pedidos, pleiteando um cargo na secretaria de estado, até que este foi satisfeito, com a nomeação como oficial de secretaria. Foi um professor durante quinze anos, mas esta vida o desagradava. Inadaptado e descontente até conseguir o posto na Secretaria dos Negócios do Reino. Obteve tudo quanto pretendeu, o que não o fez deixar de deplorar uma suposta miséria. Bom metrificador, compôs sátiras descritivas e caricaturais, sonetos e odes, que reuniu em 1801 num volume chamado Obras Poéticas. Ficou na superfície, mas apreendeu bem os erros e ridículos da época. O seu cômico consistia no agravamento das proporções , hipertrofiando o exagero, que encontrava.