19 setembro 2013

A Jaula - Alejandra Pizarnik

Alejandra Pizarnik

A Jaula

Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.

Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.

Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.


Poetisa Argentina

Alejandra Pizarnik (Buenos Aires, 29 de abril de 1936  — 25 de setembro de 1972) nasceu em Buenos Aires, Argentina, e é considerada uma das principais vozes da poesia argentina, unindo um lado lírico a outro surrealista. A poesia da poeta (prefiro-o ao vocábulo "poetisa", perdoem-me os puristas ser a minha escola, nesta matéria, a de Sophia de Mello Breyner Andresen) contempla o instante ainda enquanto abstração do tempo, enquanto medo fraco de energia, olhos que se ausentam para não ver os pormenores da abdicação, o caminho para uma casa onde não se quer estar. O seu mundo poético é, dentro da substância que o move, um mundo em convulsão, uma convulsão esteticamente a fim da sensibilidade, das sensações que se elevam a outras, de modo a tocarem as dúvidas da existência, quando não o lado científico das coisas. Em Pizarnik há por vezes um cantar do silêncio, da depressão das pequenas consequências do dia-a-dia, do lado externo dos fundamentos da fé. Esta quebra de fé está muito presente na sua poesia, um sofrimento atroz que os poemas eivam de simbolismo, de surreal (ou surrealismo), havendo, com o auxílio deste último aspecto, uma espécie de ordem da angústia, uma arrumação das emoções, sempre uma última página da razão que impede a catástrofe. Alejandra Pizarnik faleceu em 1972 em consequência de uma profunda depressão.
(Texto: Sylvia Beirute)